Marcelo Zambon (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Antes da fase maravilhosa
das comédias "Quanto Mais Quente Melhor" (59), "Se Meu
Apartamento Falasse" (60), "Cupido não tem Bandeira" (61),
"Irma La Douce" (63), "Uma Loura por um Milhão" (66),
Billy Wilder fez o magnífico Testemunha de Acusação em
1957, uma verdadeira aula de cinema , adaptado da obra de Agatha Christie.
Leonard Vole ( Tyrone Power ) é
um homem boa pinta que faz amizade inusitada com uma senhora viúva e
muito rica que começa a demonstrar apreço por sua amizade e ambos
passam a se ver com freqüência. Acreditando ser ela o objeto de desejo
de Leonard, altera o seu testamento deixando grande fortuna para Vole. Com a
morte misteriosa da viúva, Vole preocupado por ser o principal suspeito
e a chance de ser indiciado, resolve procurar o melhor advogado de defesa em
ação e chega a Wilfrid Robarts ( Charles Laughton ), que em convalescença
está proibido de aceitar casos de tanta exigência física
e mental.
Wilfrid está entregue aos
cuidados da implacável enfermeira Plimsoll ( Elsa Lanchester ) que como
um carrapato não desgruda do advogado e não o deixa fumar e beber.
Após conversar com a mulher de Leonard Vole, Christine Helm ( Marlene
Dietrich ) Robarts decide mesmo impossibilitado pelo médico aceitar o
caso para desespero da senhorita Plimsoll.
Charles Lauhgton, então com
58 anos e fazendo um de seus últimos papéis está soberbo
numa atuação inesquecível. O seu "time" para
comédia é incrível e hilariante, como demonstrou no delicioso
A Vida Privada de Henrique VIII que lhe valeu um Oscar. As cenas de Laughton
com Lanchester, sua mulher na vida real, são engraçadíssimas
e os truques utilizados por ele para enganá-la são um capítulo
à parte. Todo o elenco principal está muito bem, inclusive Power,
que geralmente em papéis de galã, está bem interpretando
o acusado. Repare na impagável cena do julgamento em que a governanta
Janet ( Una O'Connor ) depõe contra Leonard Vole; além de muito
engraçada, a forma que Wilfrid encontra para o júri desacreditá-la
é fenomenal.
Mas, o grande nome do filme é
Marlene Dietrich, numa atuação memorável e, na minha opinião,
uma das maiores atuações coadjuvantes da história do cinema.
Desde sua primeira aparição que é deslumbrante e voluptuosa
engrandecendo o filme, passando por praticamente três personagens que
interpreta ao longo do filme com incrível desenvoltura ( a cantora de
errado
cabaré, a mulher casada e ...você vai descobrir !! ), Marlene demonstra
que talento e versatilidade não falta para ela, que logo no ano seguinte
estaria igualmente marcante em A Marca da Maldade de Orson Welles.
Apesar de ser basicamente um filme
de tribunal, não é nem um pouco tedioso e sonolento, talvez pela
grande parte cômica do roteiro que em momento algum pretende roubar a
cena da dramaticidade da história, apenas está presente nas cenas
do personagem de Laughton. O difícil é saber a quem cabe maior
mérito pelo filme, se a obra de Agatha Christie, se a adaptação
de Larry Marcus ou ainda, o roteiro de Billy Wilder e Harry Kurnitz, principalmente
na antológica cena final em que é impossível o espectador
não abrir um gostoso sorriso de satisfação.
Testemunha de Acusação
concorreu a seis Oscars ( som, edição, filme, diretor, ator para
Charles Laughton e atriz coadjuvante para Elsa Lanchester ) e perdeu todos.
Em 1982 foi feita uma adaptação para a TV que contava com Deborah
Kerr, Ralph Richardson, Beau Bridges, Wendy Hiller, entre outros.
Uma vez a atriz Anne Bancroft disse
como era possível que "Crepúsculo dos Deuses" e "Quanto
Mais Quente Melhor" tivessem saído do mesmo cérebro, se referindo
à genialidade de Billy Wilder, um dos poucos e talvez o melhor a realizar
dramas e comédias com a mesma categoria. Nesse caso ele fez os dois num
filme só. Coisa de mestre."