Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:
"Com o sucesso de “Moulin Rouge”,
todos tiveram seus momentos de profeta. Afinal, quem após ver a obra-prima
de Baz Luhrmann não disse que os grandes musicais de Hollywood estavam
voltando com força total? O gênero que consagrou Gene Kelly (que
ficou muito conhecido pelo primoroso “Cantando na Chuva), parecia morto
e ent - com raríssimos cineastas apostando suas fichas em musicais;-
pois o público atual passou a achar uma bobagem personagens começarem
a cantar e dançar no meio do nada. Nessa onda de firmação,
“Chicago” chegou para mostrar que os musicais realmente retornaram,
e com uma roupagem moderna, bastante diferenciada daqueles simplistas clássicos
que encantaram multidões e acumularam fãs ao redor do mundo, como
“A Noviça Rebelde” e “Amor Sublime, Amor”. Não
é um mérito e muito menos um demérito, apenas uma forma
de se revitalizar o gênero e transformá-lo mais acessível
para o público atual. Nessa nova onda de musicais, porém, parece
que a responsabilidade e a vontade de realizar musicais com carga social e política
(como do maravilhoso “Hair”, por exemplo), está ficando de
lado. Podem tentar dizer que “Chicago” é um filme que tenta
atingir alguns poderes do mundo atual (a mídia, principalmente), mas
não. Este filme do estreante Rob Marshall é um veiculo diretamente
para a mais simples e pura diversão, daquelas que pouco exigem pensamento
ou raciocínio. E nisso, o filme cumpre seu papel. É uma diversão
ligeira, daquelas que você acompanha às duas horas com facilidade
e presencia momentos de grandiosidade do cinema. Em “Chicago” tudo
é luxuoso, extravagante, bem feito, colorido, fútil, berrante
e frenético – características que, por acaso, cabem perfeitamente
para descrever “Moulin Rouge”. As coreografias são as melhores
coisas do filme (Marshall, curiosamente, é coreógrafo formado),
muito complementadas pelo b om desempenho do elenco; formado por monstros do
cinema atual até aquelas atrizes pouco conhecidas. Mas quando o espetáculo
acaba, fica a sensação de que você viu muitas coisas. Contudo,
não parece que foi visto um filme. É difícil explicar a
principalmente falha contida em “Chicago”, pois seu queixo constantemente
está caindo no chão, porém pelo visual, pela grandiosidade
do projeto, pelo luxo dos figurinos, pela direção de arte exuberante,
ou pelas canções desengonçadas. Porém, por se tratar
de um musical, “Chicago” peca exatamente por não saber “ser
um musical”. É simples: o filme tem apenas dois números
musicais de verdade (o primeiro e o último), os restantes são
delírios da protagonista (ou de outros personagens), que é uma
forma encontrada pelo diretor em criar um paralelo do que acontece, em canções
interpretadas com bizarrice e de forma circense (no tribunal literalmente).
Através de musicas, ele também apresenta algumas personagens e
apresenta uma situação. A apresentação da Mama (Latifah),
é digerível. Porém, quando o marido de Roxie (Zellweger),
Amos Hart (Reily) canta sua tristeza, fica uma coisa desconexa. Com o sucesso
de “Moulin Rouge”, esperava-se que “Chicago”, a consagrada
obra teatral montada pelo mundo inteira e reconhecida mundialmente na Broadway
(onde está em cartaz à aproximadamente sete anos), voltasse a
ser filme rapidamente. E o processo foi realmente bem rápido e não
foi difícil encontrar um elenco ideal. Encontrar as duas protagonistas
foi mamão com açúcar. Quem poderia viver alguém
que parece perpetuada a fama e que seja bela? Zeta-Jones foi uma escolha certeira,
e consegue a melhor atuação do filme, esbanjando afinidade com
as canções e segura das coreografias. Apesar de muito bem em cena,
não se pode dizer o mesmo de Zellweger, que tem um canto muito afinado,
mas que nas coreografias, acaba parecendo um fantoche. Talvez por isso tenha
se dado tão bem na melhor cena do filme, onde ela é literalmente
um fantoche do advogado (e essa cena, sem dúvida, é a que melhor
justifica sua indicação ao Oscar); que é interpretado por
Gere, que é o ma is despretensioso, e parece se divertir cantando e dançando
como um garotão, e interpretando um espertalhão – papel
que precisava para reerguer sua carreira. “Chicago” é um
filme sobre o que é sugerido no título e sobre duas ambiciosas
e orgulhosas mulheres em busca da fama, fortuna e reconhecimento. Velma é
uma estrela, uma rainha do showbizz, que acaba sendo preso pela morte de sua
irmã. Roxie é uma sonhadora, ingênua que acaba dando a sorte
grande quando é enganada por um homem casado, e acabado o matando e sendo
presa. Na prisão, elas disputam a atenção da mídia,
brigando por espaços nos tablóides sensacionalistas. O advogado
de ambas é Billy Flynn, o mais caro e competente no ramo em Chicago.
Dentro da prisão, elas contam com a ajuda de Mama, para se promoverem.
A única figura honesta e humana do filme é Amos Hart, muito bem
interpretado por Reilly, que é o esposo de Roxie, e mesmo sendo um marido
traído, cegamente ajuda sua mulher no processo de tribunal, caindo facilmente
na massificação das noticias. Esse é o jogo em Chicago:
uma disputa de egos, uma disputa de estrelas – uma querendo ser mais que
a outra , mas individualmente, são fracas para se manterem no alto escalão
de Chicago. Marshall tem um apuro técnico fantástico. Em diversos
momentos parece que os produtores lhe pediram para imitar Luhrmann, onde a edição
fica rapidíssima, e os ângulos vão se alterando com uma
velocidade impressionante. Contudo, a inexperiência de Marshall nos entrega
um filme muito técnico, quase sem vida. Ao contrário de “Moulin
Rouge”, não é possível sentir emoções,
se envolver com os personagens, se comover com as palavras, ou se fascinar com
as situações dos personagens. Nem é demérito do
roteiro, é do diretor mesmo, que se embola completamente na hora de inserir
os belos números musicais na trama em si. Os números musicais
delirantes no misto com as situações convencionais, não
funcionam por repetir as informações e transformar tudo aquilo
em uma perda de tempo. Se tradicionalmente as partes musicais de um filme do
gênero têm de desempenhar um momento informativo do enredo –
aqui em “Chicago”, as informações são dadas
de forma convencional, para paralelamente os delírios das personagens
nos informar novamente. “Chicago” é uma boa experiência,
sem duvida. Mas não é uma grande experiência. Faltou muito
para o filme chegar em algo realmente fascinante, que narrativamente surpreenda
e faça com que nos empolguemos. Apesar de falhas, o filme acabou sendo
a fita com mais indicações ao Oscar 2003, que consagrou o elenco.
Das treze indicações, 4 foram para membros do elenco (Gere vencedor
do Globo de Ouro, curiosamente nem foi indicado), sendo que Zeta-Jones é
a única que mereça algo, mas Moore, por “As Horas”,
deve se consagrar vencedora por seus méritos. É curioso ver Reilly
sendo indicado, já que esteve presente em três dos cinco filmes
indicados ao Oscar (além de “Chicago”, ele está em
“As Horas” e “Gangues de Nova York”), e em todos com
atuações competentes, dando a impressão que a indicação
veio pelo conjunto que conseguiu (pode ser a zebra na noite do Oscar na categoria
mais imprevisível). As outras indicações, tirando Melhor
Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção (para “I
Move On”), foram para as partes técnicas, onde o filme tem um valor
inquestionável, com exceção de diretor (Direção
de Arte, Fotografia, Edição e Som). “Chicago” deverá
disputar os prêmios a tapas com “As Horas”, curiosamente os
mais fracos filmes indicados ao Oscar na categoria principal (mas ambos bons
filmes, em um Oscar principal só com filmes de bom nível), ficando
distante da beleza épica de “O Senhor dos Anéis: As Duas
Torres”, do humanismo e brilhantismo de “O Pianista”, e ainda
mais longe da obra-prima de Martin Scorsese, “Gangues de Nova York”,
o melhor filme entre os cinco. “Chicago” vale como uma diversão
moderna, bastante técnica, mas nada emotiva."